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A CULTURA TEM CAMINHOS que às vezes nascem na terra, fluidos, indecisos, depois crescem e, como um destino, fazem-se ao mar: parecem rios. De muitos rios: O Auto de Floripes, na ilha do príncipe, é uma cultura feita de rios. De muito rios: papagaio, rio banzu rio ribeira forca …É uma cultura de mar. Água doce e sal. Pulsar de marés, galés e madrugadas. Ondas da história. Memória e presente, teia de enigmas, o auto é cultura antiga, raiz líquida e funda. Festa grande que o povo guarda e cumpre todos os anos, como um destino. Um destino que lhe trouxe o mar. Uma velha sina que se transfigura a mais pequena cidade do globo, Santo António do Príncipe, no palco maior do mundo. A15 de Agosto, com reincidência no domingo seguinte, toda a manhã, um a um cristão e mouro emergem dos confins de tempo. Sempre em desfile assaltam, ocupam as ruas, enchem-nas-por artes de teatro de sons e corres de guerra. Tarde, noite dentro, teçam armas. Tenso frenesim. Pelejas ao jeito de outrora, sem quebranto de ânimo. Entretanto a cidade move-se, no seu devagar. Mas não indiferente, que este é o palco. E, á sua maneira, todos actuam. Mesmo eu terei tido um papel, nos dois anos (96 e 97) em que fotografei floripes. A negra, a casta Floripes. Donzela no auto e na vida. Virgem que a comunidade consagra no altar do teatro. Virtuosa maga, enfim, para aqui trazida pela rosa-dos-ventos. Num passado de bruma, que outros portos de abrigo demandou Floripes? Em que confins do mundo hoje se acolhe? E, em Portugal, por onde andou, por onde anda ainda a princesa turca? Talvez este livro ajude a levantar pontas do véu. |